![]() |
| CLIQUE AQUI E BAIXE |
Nos Arraiais da Memória / Volume 2 - as quadrilhas juninas escrevem diferentes história / 2013
![]() |
| CLIQUE AQUI E BAIXE
As quadrilhas juninas escrevem diferentes histórias
Mário Ribeiro
Recife, 2010
Ai que saudade que eu tenho das noites de São João ...
“Ai que saudade que eu tenho
Das noites de São João
Das noites tão brasileiras das fogueiras
Sob o luar do sertão
Meninos brincando de roda
Velhos soltando balões
Moços envolta fogueira
Brincando com o coração
Eita São João dos meus sonhos
Eita saudoso sertão ai ai”
(Luiz Gonzaga e Zé Dantas)
A lembrança nos traz á memória a
mais remota passagem que temos da festa de São João quando ouvimos essa música de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Quantas imagens vêm na tela da mente? Lembranças do cheiro de fumaça no ar; do gosto de milho cozido na boca, do sabor da canjica, que se mistura ao cravo e á canela do bolo pé-de-moleque... Versos, que propõem uma profusão de sentidos, que não se curvam às definições de um dicionário limitado. As histórias das quadrilhas juninas também esbanjam muitos sentidos. Elas não se revelam completamente... Dormem no mais íntimo das memórias dos quadrilheiros; repousam nos bairros, nas ruas e nos arraiais, onde meninas brincam de roda e velhos soltam balões em noites tão brasileiras das fogueiras...
Nos Arraiais da Memória nasce, portanto, com um primeiro desafio: relacionar num mesmo trabalho, história e memória, considerando suas múltiplas temporalidades, visto que, nos depoimentos dos entrevistados, falam os jovens do passado pela voz dos adultos, ou dos idosos do tempo presente. Quadrilheiros que revelam as memórias de suas experiências e também lembranças a eles repassadas; pessoas, que falam de um tempo sobre um outro tempo; que registram sentimentos e interpretações entrecortadas pelas emoções do ontem, renovadas ou ressignificadas pelas emoções do hoje.
Nas páginas que seguem, identificamos como história e memória se conectam e se misturam, numa relação na qual se entrelaçam o passado e o presente; a lembrança e o esquecimento; o pessoal e o coletivo; o público e o privado; o sagrado e o profano.
Nesse diálogo entre memória e história existe uma relação de poder, que tanto revela como oculta. Talvez, este tenha sido o nosso segundo desafio, quando adotamos (pelas próprias circunstâncias da pesquisa) o método da história oral como procedimento para o desenvolvimento do trabalho. Nesse sentido, entre as pessoas que foram entrevistadas (testemunhas dos acontecimentos vividos pelos grupos), muitas lembranças foram reveladas de forma explícita, outras vezes de forma velada, chegando em alguns casos a ocultá-las, talvez para se proteger dos traumas e das emoções que marcaram as suas vidas.
Depoimentos únicos e fascinantes em sua singularidade e potencialidade de revelar emoções. Momentos, que não se reduzem ao simples ao ato de recordar, mas que revela o mais íntimo dos referenciais de um grupo social sobre o seu passado e presente, fornecendo significados e evitando que seus membros percam as suas raízes e identidades. Apesar de compreendermos a memória como um fenômeno coletivo e social, submetido a flutuações e mudanças constantes, identificamos nos relatos, a existência de marcos ou pontos relativamente invariáveis, imutáveis. Um desses marcos é o Festival Pernambucano de Quadrilhas Juninas, que aparece em todas as falas como uma história de vida individual, algo relativamente íntimo, como se fizesse parte da própria essência da pessoa.
Nos Arraiais da Memória também registra o reconhecimento, na sua justa medida, da contribuição de muitas pessoas que participaram do processo de escrita da história das quadrilhas juninas em Pernambuco. Nomes de quadrilheiros, gestores, jurados, professores, entre outros personagens, que são encontrados ao longo da narrativa e se misturam na busca de interesses comuns.
Paralelo a essas pessoas, cujas lembranças alimentam a construção desse trabalho, destacamos os diferentes lugares da memória que se revelam durante a pesquisa. Lugares dotados de significados, particularmente ligados a uma lembrança pessoal: os arraiais de bairro, o Sítio Trindade, a festa de São João, o Festival Pernambucano, os outros concursos.... Espaços múltiplos e comuns, que ficam nas memórias, empiricamente fundados em fatos concretos.
Uma leitura mais atenta do trabalho possibilita, ainda, identificar as mudanças que ocorreram na forma de fazer quadrilha junina no Estado nas últimas três décadas. Percebemos que elas iniciam como uma brincadeira de São João entre vizinhos do mesmo bairro e se transformam em espetáculos artísticos com uma ética própria, técnica e profissionalismo. Outras transformações identificadas dizem respeito ao próprio formato dos trabalhos dos grupos, como por exemplo: a criação de novos passos e movimentos coreográficos; as mudanças nos estilos musicais adotados; novos formatos, texturas e pigmentações dos figurinos; a gravação dos casamentos; a importância atribuída ao tema, novos personagens, entre outras inovações consideradas comuns quando se trata de uma manifestação cultural em contínuo processo de mudanças e permanências.
A pesquisa também revela ao leitor, como se configura a geografia da festa de São João no Recife e Região Metropolitana. Desde a organização dos arraiais de bairro, onde as quadrilhas e a própria Prefeitura do Recife promoviam concursos nos anos 1980, até o formato atual de descentralização do Festival Pernambucano nas seis RPA’s.
Considerando as evidências reveladas, a Gerência de Formação Cultural da Fundação de Cultura Cidade do Recife certifica-se de que apresenta à sociedade, pela primeira vez, um trabalho que registra e atribui valor científico à história das quadrilhas juninas e do Festival Pernambucano Adulto e Infantil. Uma produção de credibilidade, construída a partir dos depoimentos e das experiências de quem faz a manifestação cultural quadrilha junina ter histórias importantes, que agora se encontram documentadas. Contribuições singulares que possibilitam a construção de novas fontes, que subsidiarão pesquisas, qualificando acervos de bibliotecas públicas, escolares, museus, ong’s e centros de documentação, pesquisa e memória histórica do Recife e Região Metropolitana.
Nos Arrais da Memória possibilita também novos desdobramentos que se fazem pertinentes. Dos sessenta grupos selecionados para esta primeira edição, apenas quarenta e um tiveram suas histórias documentadas. A ausência dos outros textos deve-se a dois fatores: a dificuldade de encontrar os representantes e/ou componentes das quadrilhas que não mais participam do São João e a inexistência de documentos que comprovem empiricamente momentos da história de vida dos grupos atuantes (situação comum no universo das manifestações de cultura popular). Essa realidade dificultou a concretização da ideia inicial do trabalho, porém, contribuiu para estimular a organização da segunda edição dessa pesquisa, contemplando outras quadrilhas que igualmente contribuem para o enriquecimento da história cultural dessa cidade.
Mário Ribeiro dos Santos
Zélia Sales
|


Nenhum comentário:
Postar um comentário